QUAIS SÃO AS CAUSAS DA CONVERSÃO?
Por Zacharias Ursinus
O Espírito Santo, ou o próprio Deus, é a principal causa eficiente de nossa conversão. Por isso, é que os santos oram para que Deus os converta, e que o arrependimento é frequentemente chamado nas Escrituras de dom de Deus. “Converte-me e serei convertido, porque tu és o Senhor meu Deus” (Jeremias 31:18); “Converte-nos a ti, ó Senhor, e nós seremos convertidos” (Lamentações de Jeremias 5:21); “Deus exaltou Ele com a Sua destra para ser um Príncipe e um Salvador para dar arrependimento a Israel e perdão dos pecados;” (Atos 5:31); do qual podemos retirar um argumento mais convincente em prova da divindade de Cristo, na medida em que é peculiar somente a Deus conceder arrependimento e perdão dos pecados. “Então Deus também concedeu aos gentios o arrependimento para a vida” (Atos 11:18); “Se Deus, porventura, lhes der arrependimento para o reconhecimento da verdade, para que eles possam escapar da armadilha do Diabo (…)” (2 Timóteo 2:25).
Os meios ou causas instrumentais de conversão são a Lei – o Evangelho e, novamente, a doutrina da Lei após aquela do Evangelho. Pois a pregação da Lei vem antes, ao conhecimento do Evangelho nos preparando e conduzindo: “porque pela Lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20). Por isso, não pode haver tristeza pelo pecado sem a Lei. Depois que o pecador foi levado ao conhecimento do pecado, sucede a pregação do Evangelho, encorajando os corações contritos pela certeza da misericórdia de Deus por meio de Cristo. Sem esta pregação não há fé, e sem fé não há amor a Deus e, portanto, nenhuma conversão a Ele. Após a pregação do Evangelho, novamente sucede a pregação da Lei, para que seja a regra de nossa gratidão e de nossa vida. A Lei, portanto, precede e acompanha a conversão. Precede que pode levar a um conhecimento e tristeza pelo pecado: sucede que pode servir como regra de vida para os convertidos. É por esta razão que os profetas primeiro acusam os ímpios de pecar, ameaçam com punição e exortam ao arrependimento; então consolam e prometem remissão e perdão; e, finalmente, novamente exortam e prescrevem os deveres de piedade e piedade. Tal era, também, o caráter da pregação de João Batista. É desse modo que a pregação do arrependimento compreende a Lei e o Evangelho, embora, ao efetuar a conversão, cada um tem uma parte a desempenhar peculiar a si mesmo.
A próxima causa instrumental e interna de conversão é a fé. Sem fé não há amor a Deus, e a menos que nós saibamos qual é a vontade de Deus para conosco; a saber, que Ele nos perdoará nossos pecados por e por causa de Cristo, a conversão nunca será iniciada em nós, nem no que diz respeito à mortificação do velho homem, nem no que diz respeito à vivificação do novo: pois pela fé o coração é purificado. (Atos 15:9.) Sem fé, nós não podemos ter verdadeira alegria ou deleite em Deus; sem fé nós não podemos amar a Deus, e tudo o que não é da fé, é pecado (Romanos 14:23). Todas as boas obras procedem da fé, como sua fonte. “Tendo sido justificados pela fé, nós temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).
As causas que contribuem para a nossa conversão são a cruz, com os castigos infligidos a nós mesmos e aos outros; também os benefícios, punições e exemplos de outros, etc. “Tu me castigaste, e fui castigado, como novilho não acostumado ao jugo” (Jeremias 31:18); “É bom para mim ter sido afligido, para aprender os teus estatutos” (Salmos 119:71); “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:16). O assunto, ou matéria em que se fundamenta a conversão, é o entendimento, a vontade, o coração e todas as afeições do homem nas quais uma mudança é produzida.
A forma de conversão é o próprio desvio com todas as circunstâncias relacionadas a ela, o que inclui:
1. No que diz respeito à mente e ao entendimento, um julgamento correto de Deus, junto com Sua vontade e obras.
2. No que diz respeito à vontade, um desejo genuíno e sincero de evitar aquelas quedas e coisas que ofendem a Deus, com um firme propósito de obedecê-lO, de acordo com todos os Seus mandamentos.
3. Ao que respeita o coração: novos e santos desejos e afetos de acordo com a Lei divina.
4. No que diz respeito às ações externas e à vida: retidão e obediência iniciadas, segundo a Lei de Deus. O objeto da conversão é: 1. Pecado, ou desobediência, que é a coisa da qual somos convertidos. 2. Justiça, ou nova obediência, à qual somos convertidos. O fim principal da conversão é a glória de Deus; o próximo fim, que está subordinado à glória de Deus, é o nosso bem, que consiste em nossa bem-aventurança e gozo da vida eterna. A conversão de outros é outro fim, ainda menos principal, do que os que acabamos de mencionar. “E quando te converteres, fortalece teus irmãos” (Lucas 22:32); “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:16).
As questões relativas ao pelagianismo estão aqui devidamente colocadas; se um homem pode se converter sem a graça do Espírito Santo; e se um homem pode, pelo exercício de seu livre poder de escolha, para receber a graça divina se preparar. Pelágio sustentou a primeira, em oposição ao que as Escrituras afirmam mais claramente. “Converte-me, e eu serei convertido” (Jeremias 31:18); “É Deus quem opera em vós, tanto para querer quanto para fazer, de Sua boa vontade” (Filipenses 2:13); “Uma árvore corrupta não pode dar bons frutos” (Mateus 7:18). Os escolásticos e papistas de hoje defendem a última proposição a respeito do pelagianismo, em oposição às declarações explícitas da Palavra de Deus que acabamos de citar, e também em contradição com o que o próprio Cristo afirma, quando diz: “Ninguém pode vir a Mim, a menos que o Pai que Me enviou o traga” (João 6:44). Tomás de Aquino atribui uma certa preparação ao livre-arbítrio do homem, mas não a conversão. Ele fala, no entanto, dessa preparação, como se ela contribuísse para a graça da conversão, o que acontece com a ajuda graciosa de Deus, nos movendo interiormente.
Comentários de Zacharias Ursinus ao Catecismo de Heidelberg – DIA DO SENHOR 33 – A CONVERSÃO DO HOMEM A DEUS