Por Alexandre A. P. Cardoso
RESUMO
Este ensaio presta-se a mostrar o uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e a continuidade de seu uso no decorrer da história até a contemporaneidade. Específica e especialmente o seu uso em relação às profecias messiânicas de forma geral. O presente trabalho não se direciona a somente um tipo de profecia, mas de forma abrangente direciona-se a várias profecias messiânicas no intuito de mostrar a abrangência dos cumprimentos das promessas divinas.
PALAVRAS-CHAVE
Antigo Testamento, Novo Testamento, Escritura, Profecia messiânica
ABSTRACT
This essay lends itself to showing the use of the Old Testament in the New Testament and the continuity of its use throughout history until the present. Specifically and especially its use in relation to Messianic prophecies in general. The present work does not address only one type of prophecy, but comprehensively addresses several messianic prophecies in order to show the scope of the fulfillment of divine promises.
KEY WORDS
Old Testament, New Testament, Scripture, Messianic Prophecy
INTRODUÇÃO
Muito se questiona sobre a validade do Antigo Testamento para os dias atuais. Mais do que isso, há discussão quanto à validade de partes do próprio
Novo Testamento. Em última análise, discute-se, e questiona-se, a validade da Escritura por completo – Antigo e Novo Testamentos – para a contemporaneidade. Portanto, importa-se saber que tanto antigo quanto Novo Testamentos são vigentes para a contemporaneidade tanto quanto foram para os seus dias e no decorrer da história.
Evidência dessa vigência são as profecias do Antigo Testamento que se cumprem no Novo. Os cumprimentos das profecias registradas no Novo Testamento são de suma importância para os cristãos contemporâneos, pois, além de mostrarem a relevância do Antigo Testamento, firma sua esperança nas profecias escatológicas registradas e reafirmadas.
Específica e especialmente há vários tipos de profecias. São registradas nas Escrituras inúmeras delas. No entanto, o que se deve saber é que embora muitas sejam diferentes entre si, nunca são divergentes, pois todas corroboram para um mesmo clímax. Sendo assim, é necessário sabermos o objetivo principal da Escritura Sagrada por completo e então aprofundarmo-nos em sua composição e direcionamento para este ápice. Porém, antes de qualquer coisa é de suma importância o seguinte pressuposto: a Escritura é uma unidade indivisível e interdependente.
OBJETIVO DA ESCRITURA
Definir o objetivo da Escritura Sagrada é uma tarefa um tanto quanto complexa. Neste sentido a Confissão de Fé de Westiminster pode nos ajudar logo em seu primeiro capítulo; Da Sagradas Escrituras:
“Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo.”
Conforme visto, a Escritura Sagrada tem por objetivo dar ao ser humano o conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário para a salvação. Conforme outrora dito, é complexo definir este objetivo. Esta complexidade se dá por questão do entendimento do sentido em que Deus quer ser conhecido e qual a forma para a salvação que procede de sua vontade. Mais complexo do que isso, ainda, é relacionar tais precedentes com a questão prioritária do presente trabalho; o uso do Antigo Testamento no Novo Testamento em relação às profecias.
No entanto, tendo em vista e definido tanto a razão do presente trabalho e do objetivo principal da Escritura Sagrada como um todo se torna necessário observar e compreender a sua construção desenvolvida em torno de seus apontamentos para os objetivos estabelecidos por Deus. Em razão destes apontamentos a idéia de profecias e o conhecimento de Deus e da sua vontade necessária para a salvação serão clareados.
A COMPOSIÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO
Antes de tudo é necessário compreender que o Antigo Testamento é auto-revelação divina e como tal, o seu objetivo é que os leitores conheçam melhor a Deus (HILL e WALTON, 2007), o que está completamente relacionado com o seu objetivo principal, ainda que de forma seminal.
O desenvolvimento desta forma se inicia quando essa auto-revelação mostra o seu cerne, a aliança. A aliança é o instrumento usado por Deus para efetivar sua auto-revelação e está presente de várias formas, logo no Antigo Testamento, no princípio da auto-revelação divina.
Como princípio da auto-revelação divina, temos o Pentateuco. Chamase por Pentateuco os primeiros cinco livros da Bíblia, que foram a primeira coleção literária divinamente inspirada reconhecida por Escritura pela comunidade judaica, sendo estes: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, aos quais se atribui a autoria a Moisés. Isto importa, pelo fato de que o tema teológico unificador do Pentateuco é a promessa de Deus feita a Abrão, em Gênesis 12.3. Promessa tal, que começa a seguir-se de alianças entre Deus e o seu povo.
Segundo Hill e Walton em sua obra Panorama do Antigo Testamento “a literatura profética do Antigo Testamento inclui previsões, ou revelações divinas, e exposições, ou interpretações, da revelação voltara para a aliança de Deus com Israel” (HILL e WALTON, 2007).
O PENTATEUCO E SUAS PROFECIAS MESSIÂNICAS
Desta forma, e com pressupostos consolidados, passemos a observar as profecias messiânicas nos livros do Pentateuco.
Gênesis
Gênesis é o livro do princípio e contém a base de boa parte da teologia do Antigo Testamento. É o primeiro livro do Pentateuco, também conhecido por Torá. É essencial compreender o conteúdo e a mensagem deste livro para estudar o restante da Bíblia, quanto mais em relação às profecias messiânicas. O seu propósito é contar a maneira e motivo de Deus escolher a família de Abraão e fazer aliança com ela. Sendo assim, o objetivo da narrativa de Gênesis é estabelecer o fato de que Deus estava seguindo soberanamente um plano histórico.
Torna-se, portanto, fundamental conhecer um dos temas centrais deste livro e que corroboram para a primeira profecia messiânica, a saber, o pecado, que tem seu impacto sobre a história humana.
Após o pecado entrar no mundo por meio da desobediência dos primeiros pais, Deus dirige-se a eles e profere os castigos consequentes a tal desobediência, no entanto, de forma mitigada, estes castigos são acompanhados de bênçãos – promessas –, e uma delas é conhecida por protoevangelho, isto é, o anuncio de uma redenção por meio de um Messias.
Em Gênesis 3.15 isto pode ser visto de maneira mais clara, embora ainda seminal: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (ARA, 2009). Eis aqui, o protoevangelho, e primeira profecia messiânica, vinda diretamente da boca do próprio Deus e registrada pelo escritor de Gênesis.
No entanto, nas palavras de Geerhardus Vos:
“Contudo, não estamos autorizados a buscar uma referência exclusiva ao Messias aqui, como se somente ele estivesse sendo indicado pela expressão “semente da mulher”. A revelação do Antigo Testamento trata do conceito de um Messias pessoal de modo bem gradual. Era suficiente para o homem caído saber que, por meio do poder e graça divinos, Deus traria vitória contra a serpente do meio da raça humana. A fé poderia descansar nisso. O objeto da fé deles era muito menos definido do que o nosso, uma vez que conhecemos o Messias pessoal. Entretanto, a essência da fé era a mesma, quando considerada no seu aspecto subjetivo, confiança na graça de
Deus e seu poder de trazer libertação do pecado.”
Dado este parecer, duas relevantes considerações devem ser feitas. A primeira é quanto à graduação da revelação. O que torna ainda mais necessário que desenvolvamos a sua progressão ao decorrer de todo o Antigo Testamento até seu ápice no Novo. A segunda é quanto à especificação do que Deus quer salvar o ser humano. O que clarifica ainda mais a suma do objetivo da Escritura e sua eficácia, ainda que de forma seminal, em relação à pontualidade da revelação.
Êxodo
O nome do segundo livro do Pentateuco provém do título do Antigo
Testamento grego Exodos, que significa “saída” ou “partida”. O título é lógico porque a saída de Israel do Egito é o tema predominante do livro. Embora Moisés seja a personagem humana principal das narrativas de Êxodo, a verdadeira história é a obra redentora de Deus ao livrar Israel da escravidão do Egito e estabelecer um relacionamento singular de aliança com a nação. Sendo assim, a intenção teológica básica do livro continua sendo a autorevelação divina, porém, o seu propósito didático inclui a instrução sobre a importância da manutenção do relacionamento de aliança com Deus e a importância da lei como instrumento para moldar e preservar a identidade de Israel como povo de Deus. Desta maneira, Êxodo complementa Gênesis e apresenta Levítico.
De forma mais clara, esta manutenção da aliança e conceito de salvação pode ser visto em Êxodo 12, com a última praga contra faraó, os egípcios e seus deuses e, consequentemente, o estabelecimento da páscoa. Nas palavras de Hill e Walton:
“Os autores do Novo Testamento consideravam a Páscoa do Antigo Testamento topologicamente precursora da morte sacrificial de Jesus como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (v. Jo 1.29; 1Co 5.7). As analogias entre a Páscoa e a morte de Cristo são significativas em número e espécie (e.g., v. Êx 12.46 e Nm 9.12 com Jo 19.36).”
Podemos, a partir dessa observação, entender que a profecia messiânica está aqui presente neste formato de tipificação do Messias. Desta forma, podemos dizer que em Êxodo o Messias esperado é representado – o que traz progressão à revelação seminal – pelo cordeiro da Páscoa. Este entendimento traz consigo uma implicação de suma importância para o desenvolvimento da vontade Deus para a salvação do homem: o Messias será morto para tirar os pecados do mundo e libertar o povo de Deus.
Levítico
Levítico, o terceiro livro do Pentateuco, é um manual de regras e deveres sacerdotais e de instruções que prescreve a “vida santa” ao povo israelita. O ensinamento central do livro é resumido na ordem: “… consagremse e sejam santos, porque eu sou santo…” (Lv 11.44,45) (HILL e WALTON, 2007).
É importante saber que, o ensinamento central do livro está intrinsecamente ligado a sacrifício e consequentemente ao sumo sacerdote e seu préstimo. Vejamos este fato a partir da seguinte perspectiva: com base na lei levítica, tudo na vida era sagrado ou comum para o povo. O comum era subdividido em categorias de puro e impuro. O puro tornava-se sagrado por meio da santificação ou impuro mediante a contaminação. Desta forma, o impuro poderia ser purificado e depois consagrado ou santificado para ser tornar sagrado; o sacrifício ritual era um dos meios pelos quais o povo podia ter acesso a Deus.
De acordo com Levítico 17.1 “Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida” (ARA, 2009), o princípio da vida é representado no sangue. Logo, o sangue sobre o altar era necessário para a purificação. A expiação neste sentido, refere-se à purificação de objetos santos dos efeitos do pecado. Portanto, o altar seria purificado a favor do ofertante cujo pecado ou impureza o manchara ritualmente. Mais uma vez nas palavras, e interpretação, de Hill e Walton:
“O apóstolo Paulo interpretou a expiação na era da nova aliança da mesma forma. Todos os seres humanos são impuros por causa do pecado herdado após a queda de Adão (Rm 5.6-14). A obra redentora de Jesus Cristo lava (eleva à pureza) e santifica o pecador arrependido (1Co 6.9-11).”
Tendo em vista tais fatos, e conscientizando-nos da realidade que o sumo sacerdote era quem realizava os sacrifícios de expiação segundo Levítico 16.32-34, pode-se enxergar, agora de forma mais nítida, a tipificação messiânica. De forma ainda mais específica e relevante, pode-se entender que o Messias prometido representaria o povo, da mesma forma que seria o sacrifício perfeito.
Números
O livro de Números é o quarto do Pentateuco e dá continuidade à história do Êxodo israelita do Egito, da aliança feita no monte Sinai e da jornada rumo a Canaã. Também, destaca a provação no deserto e a rebelião do povo da aliança durante o período de formação do relacionamento dos hebreus com YHWH. Sendo assim, o livro é o diário dos primeiros dias do relacionamento da aliança entre Israel e Deus.
Sua mensagem é dupla: em primeiro lugar, a paciência e fidelidade de Deus diante da murmuração e rebelião contínua de Israel; em segundo lugar, uma revelação adicional dá natureza e do caráter do Deus da aliança, YHWH. Teologicamente, o propósito de Números era preservar os registros das fases iniciais da realização da aliança entre Deus e Israel, por esta razão o livro destaca: a santidade de Deus; a pecaminosidade do homem; a necessidade de obediência a Deus; a tragédia da desobediência aos mandamentos divinos; a fidelidade total de Deus à aliança com Israel.
A ênfase que nos importa neste livro é quanto aos Oráculos de Balaão.
Episódio que se encontra em Números 22-24. Segundo Hill e Walton:
“A inclusão dos oráculos de Balaão na narrativa destaca a mensagem básica da fidelidade de Javé para com Israel lembrando-o que é povo “abençoado” (22.12), sustentado e protegido pela presença do próprio Deus (23.21,22). A narrativa também serve para motivar Israel na jornada à terra prometida ao demonstrar o controle soberano de Yahweh sobre as nações da região. Além disso, ela amplia a promessa futura da monarquia messiânica da profecia da estrela e do cetro (24.17; v. Gn 49.10).”
Este relato traz para o povo de Deus grande progressão das profecias messiânicas. Até aqui, as promessas, profecias e alianças messiânicas estão direta e claramente relacionadas à redenção, libertação, salvação e expiação. No entanto, agora, a profecia anunciada traz consigo não só um novo ofício do Messias, mas também um sentido diferente da sua função como o ungido de Deus: reinar plenamente.
Deuteronômio
O quinto livro do Pentateuco, Deuteronômio, faz resumo importante do período no deserto e da organização material legal. O livro oferece ao povo de Deus uma perspectiva ampla dos acontecimentos da geração anterior, criando a oportunidade de renovação da aliança. Dessa forma, pode-se dizer que,
Deuteronômio foi escrito para formalizar a aliança entre Israel e o SENHOR no Sinai.
Segundo Hill e Walton em Panorama do Antigo Testamento:
“Embora os mandamentos sejam discutidos na ordem de 1 a 10, o agrupamento do material legal sugere quatro tópicos gerais: autoridade, dignidade, compromisso, direitos e privilégios. Os mandamentos 1-4 abordam estas quatro questões em referência ao relacionamento com Deus; os mandamentos 5-10 abordam as mesmas quatro questões em referência ao relacionamento entre os seres humanos.”
Dessa forma, segue-se as seguintes divisões: Dt 6-11, primeiro mandamento – a mensagem geral destes capítulos é que Deus deve r prioridade máxima e autoridade final dos Israelitas; Dt 12, segundo mandamento – como adorar a Deus e sobre nunca adorá-lo como se adoram os deuses pagãos; Dt 13.1 – 14.21, terceiro mandamento – o compromisso com Deus deve ser refletido na conduta individual; Dt 14.22 – 16.17, quarto mandamento – Deus tem o direito de ser honrado por Israel em sinal de reconhecimento de sua obra na criação e gratidão pelo livramento da escravidão no Egito; Dt 16.18 – 18.22, quinto mandamento – a importância da autoridade humana para garantir a preservação da aliança; Dt 19 – 21, sexto a oitavo mandamentos – a dignidade da existência, a dignidade derivada da homogeneidade do grupo e a dignidade do indivíduo; Dt 24.8-16, nono mandamento – o compromisso básico com o próximo é tratá-lo com sinceridade; Dt 24.17 – 26.15, décimo mandamento – os direitos individuais devem ser protegidos (HILL e WALTON, 2007).
Contudo, é observável não só no decorrer da história do povo de Deus até aqui, mas no próprio livro de Deuteronômio, em 21.22 “Se alguém houver pecado, passível da pena de morte, e tiver sido morto, e o pendurares num madeiro” (ARA, 2009), é impossível que todos os mandamentos sejam cumpridos, por qualquer pessoa, em qualquer tempo e o castigo para tal é a morte. Segue-se em 21.23 uma tipificação profética do Messias, “o seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite, mas, certamente, o enterrarás no mesmo dia; porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus; assim, não contaminarás a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança” (BÍBLIA, 2009), mais tarde afirmada pelo apóstolo Paulo em Gálatas 3.13.
Desta forma, mais uma vez aqui, o caráter da revelação e sua progressão é ampliado, o Messias é apontado como um oficial da expiação do povo que não consegue andar, por si mesmo, em retidão total a Deus e, com prenuncio de como seria ele feito, expiação sacrificial, como haveria de conquistar a redenção dos homens: morrendo como maldito.
HISTÓRICOS, POÉTICOS SAPIENCIAIS, PROFÉTICOS E SUAS PROFECIAS MESSIÂNICAS
Como já visto e reafirmado inúmeras vezes neste trabalho, a Escritura por completo testemunha da mesma vontade de Deus para a salvação do homem. Desta maneira, os escritos históricos, poéticos e proféticos também revelam essa verdade e contribuem para o progresso da revelação messiânica, reafirmando, revelando e abrangendo estas profecias.
Assim sendo, os livros em questão são de igual importância aos livros do Pentateuco, tanto no sentido geral quanto no sentido messiânico, no entanto, é necessário saber que estes livros têm como base estrutural o próprio Pentateuco. Isto é, os escritores destes livros recorrem ao Pentateuco e o subscrevem com progressão, inspirados por Deus, conforme dito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemos Lopes em sua obra A Bíblia e seus Intérpretes “os homens que escreveram o Antigo Testamento, particularmente os que vieram após Moisés, utilizaram as Escrituras já produzidas antes de seu tempo” (LOPES, 2013, p.35).
Poéticos Sapienciais
“Embora os livros de sabedoria do Antigo Testamento geralmente tenham a forma poética, eles são, também, classificados como literatura de sabedoria por outras razões. Para os hebreus, “sabedoria” constituía “habilidade de viver” que combinava com poderes de observação, capacidades do intelecto humano e aplicação de conhecimento e experiência ao cotidiano. Sendo assim, a literatura de sabedoria pode ser de natureza didática, instrutiva ou argumentativa no sentido reflexivo ou especulativo” (HILL e WALTON, 2007, p.335).
Os livros que compõem os Poéticos Sapienciais são: Jó – oferecendo uma perspectiva bíblica sobre o sofrimento; Salmos – apontando a importância do louvor em todas as suas variações; Provérbios – enfatizando que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria; Eclesiastes – mostrando que o verdadeiro desfrute da vida só é possível por meio da cosmovisão centrada em Deus; Cântico dos Cânticos – apontando para a excelência do homem e da mulher criados à imagem de Deus.
Embora sendo livros de poesia e sabedoria, contém profecias e progresso da revelação messiânica, pois, como já visto, continuam sendo Escritura e como Escritura, continuam tendo o mesmo propósito que só se mostra possível na figura do Messias. Desta forma, as profecias mais diretas e
complementares às já citadas em relação ao Pentateuco serão destacadas aqui. De igual forma, somente um dos livros de cada uma das categorias serão utilizados, dado a quantidade dos livros e de profecias.
Salmos
O livro de Salmos é um dos mais estimados e usados do Antigo
Testamento. Composto por salmos de vários autores pode-se notar que cada autor possuía um propósito específico para compor. É provável, contudo, que muitas composições tenham sido feitas para suprir necessidades litúrgicas. Esta composição litúrgica resulta em sua ordem de composição, que tem como objetivo refletir sobre a natureza de Deus e a resposta individual.
Dois temas principais são sugeridos para o livro de Salmos: o princípio da retribuição que pode ser resumido nas seguintes afirmações: o justo prosperará e o ímpio sofrerá; soberania que está relacionada com o Reino e Natureza e Criação.
Dentro da perspectiva de Reino que a ênfase messiânica pode ser encontrada de forma mais emparelhada com o que já fora visto até aqui. “Há nove salmos espalhados pelo saltério que dizem respeito especificamente ao rei: 2, 18, 21, 45, 72, 89, 110, 132, 144” (HILL e WALTON, 2007, p. 386).
Ainda segundo Hill e Walton:
“O salmo 2 dá o tom ao afirmar a escolha e proteção do rei pelo
Senhor. O salmo 18 louva a Deus por livrar o rei dos inimigos (v. 3750). Muitos salmos deste grupo pedem livramento, vitória ou benção para o rei ou falam da aliança estabelecida com a monarquia. Afirmase que Deus prometeu um reinado vitorioso aos monarcas que confiam nele e que ele é totalmente capaz de cumprir esta promessa. Isso deve ser considerado referência ao futuro rei ideal, pois vários reis da linhagem de Davi confiaram no Senhor. Em comparação, o rei ideal vindouro seria perfeitamente justo e, portanto, desfrutaria de todas as bênçãos de Deus no seu reinado.”
Tendo isto em vista, pode-se notar especificamente em Salmo 2. 6-9 “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pedeme, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro” (ARA, 2009), o contraponto do oficio real do Messias, bem como o progresso da revelação dessa profecia de Números 22-24. O Messias reinará, e seu reino tem características específicas, como o poder destrutivo sobre seus opositores.
Proféticos
“Profeta é alguém que fala no lugar de outra pessoa. Na Bíblia, o profeta geralmente é o porta-voz de Deus. […] os profetas são porta-vozes que propagam as opiniões, reações, intenções e palavras do próprio Deus. Em resumo, o “programa” divino é anunciado pelas palavras dos profetas” (HILL e WALTON, 2007, p. 445). Portanto, livros proféticos são todos aqueles que contêm os registros escritos por estes porta-vozes de Deus.
Estes livros são divididos em duas categorias principais – profetas anteriores: Josué, Juízes, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis e profetas posteriores: Isaias, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas –, e estas, dentro de si, em categorias literárias e termos específicos. Desta forma, veremos como os profetas anteriores e posteriores colaboraram para o progresso da revelação profética messiânica. Também, de igual modo aos proféticos, e pelas mesmas razões, somente um livro de cada uma das categorias será apresentado.
1 Samuel – Profeta Anterior
“Os livros 1 e 2Samuel formam naturalmente uma unidade e, a princípio constituíam um só volume. Juntos abrangem o período de transição dos juízes à instituição da monarquia, incluindo os reinados de Saul e Davi” (HILL e WALTON, 2007, p. 27). Contudo, nos deteremos somente em 1Samuel e na profecia contida em 2.10, por estar relacionada à exaltação ao poder e força do Rei que julgará as nações e derrotará os inimigos de Deus.
É neste livro que a instituição da monarquia é relatada. Por isso, tornase tão importante avaliar esse contexto messiânico no ofício real do ungido, pois, não só o que fora dito, mas o que acontecia ali, a saber, a instituição de um rei, era um ato de tipificação vivo do Verdadeiro Rei.
Outro aspecto importante, ainda tratando-se do oficio real do Messias, é a aliança davídica, que está completamente ligada à segurança da profecia, é especificada nos seguintes termos: a aliança era incondicional – isto é, estava sujeita à renovação periódica, mas não teria fim; ela teria impacto sobre o restante da história de Israel – sustenta a esperança do prolongamento da linhagem de Davi pelos séculos.
Nesta perspectiva, Hill e Walton dizem:
“A esperança de que um dia um rei davídico viria, satisfaria as condições e traria a restauração da aliança davídica total era a base da teologia messiânica vista nos profetas. […] Essa importância da aliança davídica nos ajuda a entender a longa história desde a queda de Jerusalém até o presente. Durante todo esse tempo não houve rei no trono de Davi. O Noto Testamento reconheceu Jesus como quem traria renovação da aliança. Ao satisfazer essas condições, ele abriu o caminho para um reino verdadeiramente eterno.”
Visto, não só o progresso, mas, a profecia messiânica em relação ao reinado do Messias em 1Samuel 2.10 “Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido” (ARA, 2007), bem como a aliança davídica, nota-se uma estabilização monárquica que claramente transcende os limites de um cumprimento pontual ou inaugural, mas aponta para um cumprimento em sentido de consumação. Isto é, o reino do Messias é um reino permanente, eterno.
Isaías – Profeta Posterior
“O livro de Isaías é uma coleção de adágios proféticos e oráculos de Isaías, a voz profética predominante na turbulenta segunda metade do século
VIII a.C.” (Hill e Walton, 2007, p. 459). E em sua maioria, os escritos de Isaías são oráculos de juízo intercalados com vislumbres da esperança futura.
Boa parte de sua mensagem inclui a acusação do povo, a promessa de exílio e a destruição como castigos divinos, e a esperança do cumprimento futuro da aliança. Portanto, algumas das características e temas que mais se destacam na profecia de Isaías são: nomes dos filhos como sinais – nomes que revelam significados proféticos; O Servo – a função e as realizações do servo são associadas às do Messias; Redentor – YHWH é o Redentor de Israel; escatologia – escatologia do Reino.
Embora seja possível relacionar qualquer das categorias proféticas de Isaías ao Messias, a posição dele como O Servo, certamente é a mais explícita e relacionável com todo o corpo do presente trabalho. Sendo assim, o texto clássico de Isaías 53 é o perfeito aparato para enxergarmos profecia messiânica em Isaías no contexto que corresponde às profecias de Êxodo e Levítico abordadas aqui. Vejamos alguns pontos de Isaías 53:
“[…] Certamente, ele tomou sobre si nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si […] ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados […] porquanto ele foi cortado da terra dos viventes […] designaram-lhe sepultura.”
É nítido, na figura do Servo, que a profecia não só trata do Messias, como também progride na revelação profética designada anteriormente em Êxodo e Levítico, uma vez que o explicita como sacrifício expiatório em razão dos pecados do povo, e em consequência a sua morte. O que outrora era subentendido agora é transparecido.
OS CRUMPRIMENTOS DAS PROFECIAS MESSIÂNICAS DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO
Vimos até aqui, como o Antigo Testamento replica e amplia as profecias messiânicas no seu decorrer com base no Pentateuco. De agora em diante, veremos o cumprimento de profecias messiânicas do Antigo Testamento no Novo. Algumas delas, com seu cumprimento total – consumação – e outras com seu cumprimento parcial – inauguração.
Também, da mesma forma que os escritores do Antigo Testamento interpretavam e, inspirados pelo Espírito Santo, escreviam, os escritores do
Novo Testamento também assim o fazem, segundo Augustus Nicodemus Lopes em sua obra A Bíblia e seus Intérpretes:
“Os autores do Novo Testamento em geral, e Paulo em particular, construíram seus escritos sobre a revelação escrita prévia, as Escrituras do Antigo Testamento, seguindo a mesma tradição hermenêutica que levou os autores posteriores do Antigo Testamento a construir sobre textos anteriores […] os escritores do Novo Testamento estão convencidos de que Cristo é a chave que abre o sentido do Antigo Testamento.”
Conforme a citação acima relata, os escritores do Novo Testamento estavam convencidos de que Cristo é a chave que abre o sentido do Antigo Testamento. Isso quer dizer tão somente, que eles tinham plena consciência de que Cristo era o Messias que havia sido profetizado no decorrer de todo o
Antigo Testamento como Servo, Rei, Sacerdote, Sacrifício, Expiação, Redentor, Ungido e que havia chegado para que estas fossem cumpridas e inauguradas. Desta forma, analisaremos o cumprimento de algumas profecias messiânicas nos seguintes grupos de livros que compõem o Novo Testamento: evangelhos ou biográficos, históricos, epístolas paulinas e católicas e revelação ou profético.
EVANGELHOS E OS CUMPRIMENTOS MESSIÂNICOS
A palavra “evangelho” é derivada da palavra grega euaggelion – evangélion, que significa; alegres novas, notícias boas ou felizes. Esta definição é importante porque define o que de fato é sentido com a chegada do messias profetizado por milhares de anos. Sua chegada é uma boa nova, uma feliz notícia.
Os evangelhos, livros do Novo Testamento, são quatro. Sendo eles: Evangelho segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João, exatamente nesta ordem. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinóticos. Em razão de sua semelhança quanto aos relatos da vida e ministério de Jesus.
No entanto, o evangelho de Mateus dedica um espaço maior em relação às citações do Antigo Testamento e em razão disso “o evangelho de Mateus serve de base para quando se olha atrás para as Escrituras da antiga aliança” (CARSON, MOO e MORRIS, 1997, p.96). Desta forma, será no evangelho segundo Mateus que os apontamentos sobre o cumprimento das profecias messiânicas do Antigo Testamento serão feitos.
Evangelho Segundo Mateus
O que fora profetizado no Antigo Testamento sobre o Messias ser nascido descendente do rei Davi é explicitamente afirmado em relação a Jesus Cristo no evangelho segundo Mateus. Logo no primeiro capítulo dos seus escritos o evangelista relata:
“Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão […] Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias; Salomão gerou a Roboão; Roboão, a Abias; Abias, a Asa; Asa gerou a Josafá; Josafá, a Jorão; Jorão, a Uzias; Uzias gerou a Jotão; Jotão, a Acaz; Acaz, a Ezequias; Ezequias gerou a Manassés; Manassés, a Amom; Amom, a Josias; Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel, a Zorobabel; Zorobabel gerou a Abiúde; Abiúde, a Eliaquim; Eliaquim, a Azor; Azor gerou a Sadoque; Sadoque, a Aquim; Aquim, a Eliúde; Eliúde gerou a Eleazar; Eleazar, a Matã; Matã, a Jacó. E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo. De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze.”
Esta realidade apresentada através da genealogia de Jesus é fundamentalmente importante para o desenvolvimento de todo o restante do conceito sobre o Messias e seu papel mediante as profecias sobre ele. Primeiramente porque mostra que de fato ele chegou, e em segundo lugar, especificamente para o reinado, ele é da tribo de Davi e assim poderá corresponder à restauração e continuidade perpétua do reinado davídico, afirmado na aliança davídica.
Por essa razão, o cumprimento da profecia messiânica registrada na genealogia de Jesus Cristo está intrinsecamente ligado ao seu oficio real. O cumprimento desta profecia, no entanto, é parcial – inaugural – uma vez que o Messias ainda não consumou o seu reinado.
HÍSTÓRICO E OS CUMPRIMENTOS MESSIÂNICOS
“Como único livro histórico do Novo Testamento, temos Atos dos
Apóstolos, que relata a história dos primórdios do cristianismo […] nele, somos conduzidos num passeio muito rápido ao longo de três decênios de história da igreja” (CARSON, MOO e MORRIS, 1997, p.203-204).
Mas, assim como os livros históricos do Antigo Testamento, Atos dos Apóstolos não deixa de ser Escritura, e assim, unidade que relata da vontade de Deus para o ser humano, isto é, a salvação, e esta, por intermédio do Messias. Por essa razão, Atos dos Apóstolos, contém cumprimentos proféticos messiânicos advindos do Antigo Testamento.
Atos dos Apóstolos
Um dos cumprimentos messiânicos relatados em Atos dos Apóstolos, que será destacado aqui, é bem mais abrangente do que se pode imaginar. Isto, pelo fato de que ocorre depois da ressurreição e assunção do Messias. Ou seja, é uma gradação da revelação que ocorre após o ápice da revelação em si com a sua vinda.
O dado cumprimento corresponde ao que foi profetizado em Salmo 110.1 que diz: “Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (ARA, 2009) e está relacionado à exaltação do Messias à destra de Deus. O registro é feito, relatando a morte do primeiro mártir Estevão, em Atos dos Apóstolos 7.56 onde o próprio Estevão diz: “[…] Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus” (ARA, 2009).
Importa sabermos aqui, que este relato não traz à tona tão somente a exaltação e posição de honra do Messias, mas também traz à tona aspectos do seu Reino inaugurado, aguardando a consumação, isto veremos logo no tópico Apocalipse.
EPÍSTOLAS E OS CUMPRIMENTOS MESSIÂNICOS
A fé cristã é fundamentada em acontecimentos históricos descritos principalmente nas narrativas bíblicas. As epístolas em especial foram escritas para aplicar a mensagem do evangelho de Cristo às necessidades e aos desafios específicos enfrentados pelas igrejas. Em suma, as epístolas do Novo Testamento contêm teologia aplicada à vida da igreja. São cartas que visam atender a necessidades específicas.
Desta forma, as epístolas bíblicas do Novo Testamento são categorizadas em dois grupos; as epístolas paulinas – autorais do apóstolo Paulo – e as epístolas gerais ou católicas – com autorias diversas entre outros apóstolos e até mesmo anônimas, no caso de Hebreus.
Mais uma vez, é necessário dizer que estas epístolas fazem parte da unidade escriturística que revelam a vontade de Deus para a humanidade. Sendo assim, ainda nas epístolas, podemos ver cumprimentos das profecias e relatos das profecias cumpridas. De igual forma, os cumprimentos de profecias messiânicas estão inerentes nestas cartas.
Epístolas Paulinas
Paulo de Tarso se tornou um instrumento de Deus para revelar o “mistério do evangelho, especialmente aos gentios. Durante sua carreira no apostolado, Paulo não apenas levou o evangelho a muitos lugares, como também deixou seus preciosos escritos – epístolas – e nela um legado de ensino cristão, cuja profundidade ainda não foi inteiramente perscrutada pela igreja.
Em suas epístolas o apóstolo Paulo trata dos assuntos mais diversos no que diz respeito ao evangelho, principalmente na prática. Além disso, nelas ele doutrina as igrejas com as quais se relacionava, prepara os pastores ali colocados para o cuidado dos santos, defende a fé cristã, faz resistência aos falsos mestres e profetas, relata da sua própria carreira da fé à medida que se torna exemplo para os que o conhecem e leem, “ […] sejam imitadores meus, assim como eu sou de Cristo” em sua primeira epístola aos coríntios (ARA, 2009). Certamente, não poderia faltar, nas epístolas paulinas, as menções aos cumprimentos de profecias messiânicas veterotestamentárias com a chegada da “plenitude dos tempos” como ele mesmo diz.
Dado, também, a quantidade de epístolas paulinas, somente uma terá destaque no que diz respeito ao que se presta este trabalho, a saber, o uso do Antigo Testamento no Novo visto nas profecias messiânicas.
Romanos
“Romanos é a mais longa e teologicamente mais significativa das cartas de Paulo (CARSON, MOO e MORRIS, 1997, p.267).
O evangelho de Paulo consistia na mensagem de que, em Jesus, tanto o judeu como o gentio poderiam ser salvos. Por isso, ele lembra a seus ouvintes judeus que: sem Cristo, estão tão condenados quanto os gentios. Em suma, o que o apóstolo Paulo tem por objetivo principal é apresentar a realidade universal do pecado e a realidade universal da possibilidade de salvação mediante o Messias, prometido do Antigo Testamento, que havia vindo e cumprido as profecias sobre si.
E é exatamente sobre o Messias que viria para todos os povos que Paulo certifica o cumprimento profético. Em 15.8-12 ele diz:
“Digo, pois, que Cristo foi constituído ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos nossos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa de sua misericórdia, como está escrito: Por isso, eu te glorificarei entre os gentios e cantarei louvores ao teu nome. Também diz: Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo. E ainda: Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos louvem. Também Isaías diz: Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios; nele gentios esperarão.”
Antes de tudo, saibamos sobre quais profecias ele tem falado quando diz “está escrito”. Ele está citando o trecho final do cântico de Davi, registrado em 2Samuel 22.50-51 “celebrar-te-ei, pois, entre as nações, ó SENHOR, e cantarei louvores ao teu nome. É ele quem dá grandes vitórias ao seu rei e usa de benignidade para com seu ungido, com Davi e sua posteridade, para sempre” (ARA, 2009). Agora, observemos a abrangência dos escritos de Paulo aqui.
Paulo está enfatizando a benção da salvação para todos os povos, ele está dizendo que a vontade de Deus para a humanidade, a salvação, está agora disponível, de fato, para todos os povos. Porém, mais do que isso, Paulo também está declarando o governo inaugurado do Messias quando cita o profeta Isaías. Talvez, seja esta, nas epístolas gerais a maior confirmação do cumprimento profético messiânico veterotestamentário em relação à salvação de pessoas de todos os povos.
Epístolas Gerais ou Católicas
Essas cartas costumam ser chamadas coletivamente de “Epístolas Gerais” ou “Epístolas Católicas”, uma vez que foram escritas para públicos mais universais do que as cartas bastante específicas do apóstolo Paulo. Os seus autores são, exceto Hebreus, diversos dos apóstolos, tais como; Tiago, Pedro, João e Judas e ao todo somam sete cartas.
Embora menos numerosas no Novo Testamento, o presente trabalho se prestará a apontar somente em uma delas o cumprimento de uma das muitas profecias messiânicas veterotestamentárias.
Hebreus
Mesmo tendo seu autor desconhecido, a epístola aos Hebreus é de suma valia e tem sua canonicidade certamente justificada. Ela tem como propósito incentivar a fidelidade da igreja a Cristo e à sua nova aliança mostrando que ele é o novo, último e superior sumo sacerdote. Sendo assim, seu propósito já é revelador no que diz respeito à tipificação de Cristo em Levítico, abordado no tópico Levítico.
Logo no início do primeiro capítulo pode-se ver de forma exuberante uma declaração à respeito da revelação de Deus. Porém, mais do que uma declaração sobre a revelação divina, este trecho é precedente do relato de cumprimento de uma profecia messiânica do Salmo 45.6-7 que diz “O teu trono, ó Deus, é para todo sempre; cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros” (ARA, 2009).
O relato do cumprimento dessa profecia encontra-se nos versos 8 e 9 do capítulo 1 de Hebreus, o qual diz: “mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros” (ARA, 2009). Além de entronizar o Messias, isto é, transparecer a sua, por assim dizer, realeza, o que de fato se tem aqui é o cumprimento de uma profecia que diz que o Messias é tão somente Deus.
Desta forma, pode-se considerar este relato de Hebreus, como um dos trechos neotestamentários mais importantes no que diz respeito a relatos de cumprimentos veterotestamentários messiânicos. Isto, dado a razão ao fato de que todas as outras profecias só podem ser cumpridas e solidadas por conta desta realidade, a saber, que o Messias – Jesus Cristo – é o próprio Deus. Todos os ofícios dele dependem da sua natureza divina junto à natureza humana.
PROFECIAS MESSIÂNICAS DO NOVO TESTAMENTO COM O USO DO ANTIGO TESTAMENTO
Após a análise tanto das profecias quanto dos cumprimentos messiânicos no Antigo e no Novo Testamentos, uma nova abordagem será utilizada neste último capítulo. Aqui veremos, a exemplo de uma, como todas as profecias messiânicas se cumprirão ainda no Novo Testamento. Em suma, todas as profecias têm relação com a volta do Messias, para consumar aquilo que foi inaugurado por ele com o cumprimento das profecias messiânicas veterotestamentárias.
Desta forma, de forma enfática, as profecias neotestamentárias encontram-se meio ao escrito de revelação ou profético.
Esse tipo de escrito significa e ou designa o que deve acontecer em breve. No sentido bíblico, melhor definindo, é sobre a consumação dos propósitos redentores de Deus.
No Novo Testamento, somente um livro contém esse teor revelacional e profético, o livro de Apocalipse.
A literatura apocalíptica, literatura de revelação e ou profecia, no Novo Testamento está, tão somente, relacionada à consumação das profecias que foram inauguradas e das que foram lançadas nesta própria escrita.
Escrito de Revelação ou Profético
Tendo sido escrito pelo apóstolo João quando exilado na ilha de Patmos entre os anos 66-95 d.C, o livro de Apocalipse contém muitos textos de difícil interpretação, diversas figuras de linguagem e profecias. Seu propósito principal está em estimular a fidelidade a Cristo em meio ao sofrimento pela afirmação de que Deus governa a História e certamente a levará a uma gloriosa consumação de julgamento e benção em Cristo.
Porém, o que nos interessa neste ponto é saber como as profecias contidas em Apocalipse completam o progresso da revelação profética messiânica do Antigo Testamento no sentido da vontade de Deus para a humanidade. Deste modo, por sabermos que as profecias messiânicas podemse dividir em inauguradas e consumadas, saberemos também que haverá o tempo em que, de fato, todas as profecias, querem messiânicas quer não, serão, todas, consumadas. Esta realidade encontra-se em Apocalipse 22.6-7:
“Disse-me ainda: Estas palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer. Eis que venho sem demora. Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia desse livro”.
De forma absolutamente clara, o relato escrito por João mostra como o ápice de todas as profecias consuma-se aqui, mesmo que ainda como, também, profecia. Ao analisar este pequeno trecho, podem-se perceber pontos fundamentais quanto a esta consumação total vindoura. Nas palavras do comentarista do Novo Testamento Simon kistemaker, estes pontos podem ser explicados:
“A glória das cenas celestiais chegou ao fim; João, porém, que voltou à realidade cósmica, está ainda na presença do anjo. O texto grego reza sucintamente: “E ele me disse”, enquanto se faz evidente que o anjo é o porta-voz (ver 22.1). Há múltiplas testemunhas na conclusão do Apocalipse. Ali está o anjo que se dirige a João e o corrige. Também está ali o próprio João, Jesus e, por fim, o Espírito Santo e a noiva (a Igreja). […] Ambos, o anjo e João, dão testemunho da legitimidade do livro, a qual é absolutamente fidedigna, uma vez que Deus é o seu autor […] “Estas palavras são fiéis e verdadeiras” é uma repetição de 21.5 (ver também 19.9). Ao reiterar essas mesmas palavras, João salienta sua indisputável confiabilidade […] João escreve: “O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar a seus servos” (comparar Nm 27.16). João tem em mente a obra do Espírito Santo, o qual inspirou os profetas do Antigo e Novo Testamentos, não só para falar, mas também para escrever a Palavra viva de Deus (Ap 19.10; ICo 14.32). E João recorreu a ambos os Testamentos para formular seus pensamentos no Apocalipse.” (p.
733-734)
O que temos aqui é tão somente, a profecia última e consigo as razões para que todos os eleitos de Deus creiam nela. A razão apresentada para esta crença se dá no fato de deixar claro que o que profetiza estas coisas por meio de João, é o mesmo que profetizou por intermédio dos profetas do Antigo Testamento, e tendo as profecias do Antigo Testamento se cumprido, certamente, essa também será. Desta forma, até aqui, vemos o uso do Antigo Testamento no Novo.
CONCLUSÃO
Certamente, ao exemplo do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento em relação às profecias messiânicas e seus cumprimentos, podemos afirmar que, de fato, as discussões e questionamentos quanto à validade e vigência do Antigo e Novo Testamentos juntos ou separadamente, na contemporaneidade, são infundados e, até mesmo, desnecessários. Além disso, esta relação entre Antigo e Novo Testamentos, profecia e cumprimento, devem alimentar a fé do povo de Deus e abranger seu ponto de vista escatológico. Uma vez que é possível perceber as realidades, a verdade e a fidelidade da Palavra de Deus em revelar sua vontade para a humanidade e do próprio Deus em corroborar para que seja possível o clímax nela relatado – prometido.
Por fim, devemos ter como base os dizeres do apóstolo Paulo a Timóteo
“fiel é a Palavra, e digna de toda aceitação”. Quer Antigo quer Novo Testamento, toda a Escritura é válida, como também necessária para todo e
qualquer ser humano. Ela é a Palavra de Deus, seu uso deve ser vigente e sua aceitação deve ser completa em sua totalidade.
BÍBLIOGRAFIAS
CARSON, D. A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Introdução à Metodologia das Ciências Teológicas – 3ª Ed. Goiânia: Editora Cruz, 2015
GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Velho
Testamento. Campinas: Luz Para o Caminho, 1995
HILL, Andrew E., WALTON, John H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2007
HODGE, A. A. Confissão de Fé de Westminster Comentada. Recife: Os Puritanos
KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 2017
KISTEMAKER, Simon. Apocalipse: comentário bíblico. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004
LOPES, Augustus Nicodemos. A Bíblia e seus intérpretes – 3ª Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2013
MOULTON, Harold K. Léxico grego analítico. São Paulo: Cultura Cristã, 2007
VOS, Geerhardus. Teologia bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2010
WALTON, John H., MATTHEWS, Victor H., CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018