Por Alexandre A. P. Cardoso
RESUMO
O presente artigo presta-se a discorrer sobre a teodiceia ou problema do mal. Mais especificamente sobre o problema da coexistência de um Deus Todopoderoso e totalmente bom com o mal moral. Assim, define os termos relevantes para a compreensão do assunto, além de contrastar as ideias de duas grandes mentes quanto ao assunto, Gordon Clark e Alvin Plantinga. Além disso, aponta para o conceito bíblico desse problema através do profeta Habacuque de seus escritos, que compõem um dos livros do Antigo Testamento. Por fim, destaca que há sentido e resquícios de verdades que são aceitáveis nos pensamentos de Clark e Plantinga e que, no entanto, os mesmos precisam ser somados à perspectiva da Bíblia quanto ao assunto, que ela própria não considera como um problema.
PALAVRAS-CHAVE
Deus, Todo-Poderoso, Bom, Problema do Mal, Mal, Teodiceia, Coexistência
ABSTRACT
This article lends itself to talk about theodicy or problem of evil. More specifically on the problem of the coexistence of an Almighty and totally good God with moral evil. Thus, it defines the relevant terms for understanding the subject, in addition to contrasting the ideas of two great minds on the subject, Gordon Clark and Alvin Plantinga. Furthermore, it points to the biblical concept of this problem through the prophet Habakkuk from his writings, which make up one of the books of the Old Testament. Finally, it points out that there are senses and remnants of truths that are acceptable in the thoughts of Clark and Plantinga and that, however, they need to be added to the perspective of the Bible on the subject, which she does not consider as a problem.
KEY-WORDS
God, Almighty, Good, Problem of Evil, Evil, Theodicy, Coexistence
O QUE É O MAL?
Perguntas difíceis na maioria das vezes não tem respostas fáceis. As vezes nem têm respostas e, quase sempre, levantam outras perguntas. Tentar responder “o que é o mal?” provavelmente, gerará mais perguntas. Assim, algumas questões que podem surgir e ajudar, ou não, a decifrar o que é o mal, são: “qual o limite do bem, para se delimitar o que é mal?”, “o que é mal para mim pode não ser para outros?”, “o mal é relativo?” e “há graus e categorias para o mal?”.
Para a “sorte” de quem se propõe a isso, há quem responda algumas dessas perguntas, ou parte delas, e com isso fazem com que o pensar sobre a definição do mal seja um pouco menos difícil ou menos complicado. Agostinho de Hipona, também conhecido por Santo Agostinho, refletindo sobre o mal, categoriza-o em três níveis: o metafísico-ontológico; o moral e o físico. Sendo que, por mal metafísico-ontológico entenda-se que o mal não existe no cosmos, mas apenas graus inferiores de ser, em relação a Deus, graus esses que dependem da finitude do ser criado e dos diferentes níveis dessa finitude.
Mas mesmo aquilo que, numa consideração superficial, parece “defeito”, na realidade, na ótica do universo, visto em seu conjunto, desaparece. As coisas, as mais ínfimas, revelam-se momentos articulados de um grande conjunto harmônico.
Quanto ao mal moral, definido por pecado, diz Agostinho que esse depende de nossa má vontade. E a má vontade não tem “causa eficiente”, e sim muito mais, “causa deficiente”. Por sua natureza, a vontade deveria tender para o Bem supremo. Mas, como existem muitos bens criados e finitos, a vontade pode vir a tender a eles e, subvertendo a ordem hierárquica, preferir a criatura a Deus, optando por bens inferiores, em vez dos bens superiores. Sendo assim, o mal deriva do fato de que não há um único bem, e sim muitos bens, consistindo precisamente o pecado na escolha incorreta entre esses bens. O mal moral, portando, é “aversio a Deo” e “conversio ad creaturam”. O fato de se ter recebido de Deus uma vontade livre é para nós grande bem. O mal é o mau uso desse grande bem.
Por fim, como consequência dos males metafísico-ontológico e moral, o mal físico que, em suma, é representado por doenças, sofrimentos e a morte. Mas, destaca Agostinho, para quem reflete na fé: é a consequência tão somente do pecado original, ou seja, é consequência do mal moral. A corrupção do corpo que pesa sobre a alma não é a causa, mas a pena do primeiro pecado. É quanto ao mal moral que precisamos nos debruçar para, no mínimo, arranharmos qualquer possibilidade de responder à pergunta inicial.
O MAL MORAL
O mal moral é o que mais nos interessa por ao menos duas premissas. Primeiramente, porque ele, por ser definido como pecado, é um mal pessoal, diferente do metafísico-ontológico e um mal causal, não decorrente como é o mal físico. A segunda premissa é a de que ele comprova o mal metafísicoontológico, pois sua prática busca sempre o oposto do que é o bom, ao passo que explica o mal físico uma vez que esse embora tenha efeitos ativos, é causado passivamente.
Além disso, o pressuposto bíblico também o enfatiza. Na verdade, enfatiza tanto sua importância como prova à concepção do que é mal quanto como explicação para o que procede de sua prática. O pecado é a raiz de todo o mal.
Dessa forma é necessário observamos alguns aspectos bíblicos quanto ao mal, principalmente em seu portador – tendo em vista ser ele o que se conceitua por pecado –, o homem.
Os pressupostos bíblicos por William Fitch
Para apresentar os pressupostos bíblicos do mal moral ou pecado, William Fitch, em seu livro Deus e o Mal, faz cinco apontamentos pertinentes para o presente trabalho e para a “solução” da problemática.
O primeiro apontamento é quanto ao fato de que a Bíblia afirma que o mal não pertence propriamente à natureza humana. Com isso Fitch quer dizer que o homem, assim como Gênesis 1.26-31 relata, foi criado bom. Logo, o autor,
assim como o texto bíblico, enfatiza implicitamente que Deus não tem relação criadora ou criativa com o mal.
Em segundo lugar, Fitch aponta que a Bíblia afirma que o mal penetrou em nossa natureza. Essa premissa é dependente da primeira bem como confirma os fatores explícitos e implícitos dela. Além disso, ela mostra, portanto, que o mal passa existir e, para isso, o Fitch leva em conta a liberdade do homem, uma vez que mesmo sendo bom optou por fazer o que não era correto conceitual e moralmente (Gênesis 3.6). Inclusive, é possível notar a consequência física desse pecado, tanto na vergonha da nudez quanto no fatídico episódio dos primeiros filhos, conforme narrado em Gênesis 4.8.
O terceiro apontamento é o de que a Bíblia revela a essência do mal. Tendo por base a ordem de Deus para o homem em Gênesis 2.16, Fitch define a essência do mal – como ação – como o não atender, não confiar, não obedecer à proclamada e ouvida vontade de Deus. Isso revela que o mal moral também é conceitual em certo sentido.
O quarto, e penúltimo apontamento, é o de que a Bíblia mostra que o mal afetou toda a criação “boa”. Com bases em Gênesis 3.14-19, onde Deus lança suas maldições – mitigadas – à serpente, à mulher e ao homem, mostra que todos os aspectos da criação sofrem com o mal moral do homem. O apóstolo
Paulo é enfático ao afirmar isso: “Pois a criação está sujeita à vaidade por causa daquele que a sujeitou […] a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção […] toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora (Romanos 8.19-22). Com isso, os efeitos do mal moral são novamente ressaltados, agora em larga e alarmante escala.
Por fim, em quinto lugar, Fitch aponta que a Bíblia ensina que o mal não reinará para sempre no universo de Deus. O mal, assim como não estava no princípio, não estará para sempre. O mal é finito. As bases de Fitch para tal afirmação estão nas declarações do próprio Criador de todo o bem, conforme descrito em Gênesis 3.15 – o protoevangelho.
Bem, a partir disso, dentro das colaborações de Fitch, surgem algumas novas dúvidas: “se Deus criou tudo bom e pode restaurar tudo o que se perverteu – portanto é todo-poderoso e bom – por que não evitou o mal?”, “por que o mal existe?”. Essa é a conhecida teodiceia ou problema do mal – o ponto principal do presente trabalho.
O PROBLEMA DO MAL
Conforme supracitado, a resposta à pergunta “o que é o mal?” é: o não atender, não confiar, não obedecer à proclamada e ouvida vontade de Deus. Assim, é possível partir para o problema maior, pois o problema do mal gira em torno da seguinte questão “como é possível harmonizar a existência de Deus com a existência do mal?”. Por isso, vamos aos fatos, parte por parte.
A existência de Deus:
Deus existe? Essa é a primeira questão que precisa ser levada em conta, antes de qualquer coisa. A resposta, comprovadamente, é sim.
Thomás de Aquino, embora não prove a pessoalidade de Deus, prova sua existência através de cinco vias. Ele apresenta estas cinco vias que provam a existência de Deus como solução ao próprio questionamento da existência de Deus.
Resumidamente, as cinco vias se apresentam assim: a primeira prova a existência de Deus pelo movimento – todo o movido por outro o é. Em outras palavras, há dois tipos de movimento: o primeiro é o movimento de lugar dado na locomoção que um ser corpóreo faz, de um lugar ao outro; o segundo, é o movimento de sucessão que ocorre no crescimento de uma criança até o seu pleno grau de amadurecimento. Portanto, se há movimento, é então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro, e este, todos entendem: é Deus.
A segunda via prova a existência de Deus pela causa eficiente. Ela se baseia na dependência e causalidade que há nas atividades dos seres existentes. Assim, as causas subordinadas dos seres existentes levam-nos
direta e imediatamente a uma causa eficiente primeira com certos atributos. Não subordinada e “incausada”, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar. A esta causa eficiente primeira chamamos: Deus.
A terceira via prova a existência de Deus pelo ser necessário. Ela faz isso procurando o ponto de partida na entidade destes seres contingentes, ou seja, dependente de outro ser necessário para existir. O casual é qualquer ser que existe, mas poderia não existir, por não ter em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência. Desta forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo e que é a causa e a necessidade de todos os outros: é necessário a existência de Deus.
A quarta via prova a existência de Deus pelos graus de perfeição dos seres. Em outras palavras, os graus de bem que residem nas criaturas. Vemos nos seres que uns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que os outros. Assim, ninguém duvida que o homem seja mais perfeito que o animal; o animal mais que o vegetal; e este mais que o mineral. O mesmo deve-se dizer da bondade, da verdade, da nobreza e das outras perfeições semelhantes, as quais encontra-se em todos os seres segundo uma diversidade de graus, em virtude da qual alguns seres são mais perfeitos que outros. Deste modo, a quarta via, para achar a razão suficiente das perfeições existentes no mundo, nos conduz necessariamente à existência de Deus, à existência de um Ser perfeito, único e simples, o qual é evidentemente distinto dos seres do universo: Deus.
A quinta e última via prova a existência de Deus pela ordem do universo (o que hoje é raiz do conceito de Designe Inteligente). Ela faz isso considerando a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes numa planta até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles que, facilmente, conduz à conclusão de que uma Inteligência que criou e ordenou tudo isto, caso contrário seria absurdo dizer que isto é fruto do acaso. Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora, uma vez que não pode ter sido criada, porque seria como
qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Por fim, a Inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita. A este ser Criador, Subsistente por si e Infinito, chamamos: Deus.
Assim, a existência de Deus é comprovada, mas, conforme dita, sua pessoalidade, pelas vias, não. Porém, a Bíblia, revelação especial de Deus fala sobre si e mostra duas coisas que são de total interesse quanto à problemática apresentada neste trabalho. Seu caráter e seu poder.
O Ser de Deus
Embora certamente seja possível provar a existência de Deus pela própria Bíblia, de forma racional, o presente trabalho opta por utilizar os argumentos bíblicos para provarem os atributos pessoais de Deus.
A bondade de Deus:
O primeiro atributo abordado, portanto, relacionado ao caráter de Deus e ao objetivo do trabalho, é a bondade. Previamente, no entanto, é necessário saber que, assim como destaca J. I. Packer, quando os escritores bíblicos chamam Deus de “bom”, eles estão pensando, de maneira geral, em todas as qualidades morais que levam seu povo a chamá-lo de “perfeito”. Ainda, Packer afirma que a exposição clássica da bondade de Deus é o salmo 107, uma vez que a declaração de que YHWH é “bom” o salmista faz tal generalização a partir de experiências difíceis passadas por Israel e israelitas que foram solucionadas por Deus, por terem clamado a Ele.16
Curiosamente o que Packer ressalta, bem como o próprio salmo 107, é que Deus livra o seu povo do mal, porque ele é o oposto do mal, ele é bom. Esse fato chama a atenção para o caráter de Deus no aspecto da bondade que não suporta o mal, mas também para o seu poder em reverter a situação.
O poder de Deus:
O poder de Deus é comumente reconhecido. Em praticamente todas as religiões a concepção de um deus todo-poderoso é sustentada. Até mesmo culturalmente é comum crer em um deus que tem o atributo da onipotência. YHWH, o Deus da Bíblia, o único Deus verdadeiro e Todo-Poderoso, de fato é onipotente. Isso faz parte de seu ser e está intrínseco a seu caráter.
Através das vias esse atributo já é notado. Ele é poderoso para criar (Gênesis 1.-2.3), bem como é para livrar o seu povo do mal (Cf. Salmo 107). No entanto, Berkhof destaca algo interessante quanto ao seu poder ao afirmar que o poder de Deus – sua onipotência – é para a execução de sua vontade, com bases em textos como Gênesis 18.14 que mostra que não há nada difícil para
Deus, a ponto de fazer coisas realmente inimagináveis, conforme mostra Mateus 3.9.
Essas informações, tanto da bondade de Deus quanto do seu poder, em primeira análise, podem lançar ainda mais dúvidas quanto à questão crucial (agora reformulada mediante às novas informações) “se Deus existe, é bom e todo-poderoso, por que o mal existe?”. No entanto, se visto de forma mais profundo, elas apontam para a resolução do empasse.
A QUESTÃO DA COEXISTÊNCIA
A grande problemática, portanto, não está na existência de Deus ou na existência do mal, pois em suma ambos são cridos. O grande problema está na coexistência deles. Essa problemática vem repercutindo por milênios. Platão (427-428 a.C.), por exemplo, tentou explicar o mal conjeturando que Deus não é a causa de todas as coisas, mas somente de umas poucas. Aristóteles (385 – 323 a.C.), por sua vez, foi uma exceção aos questionamentos, mas não à discussão da problemática. Ele concebia Deus de tal maneira, que a relação do divino com o mal, para ele, quase não tinha importância.18 Santo Agostinho (354 – 430), conforme visto anteriormente neste trabalho, também conjecturou quanto ao problema do mal, não só em que ele é, mas como se relaciona a existência do Deus onipotente e totalmente bom.
No entanto, no presente trabalho, dois autores serão colocados em questão quanto a coexistência de Deus e o mal. Suas opiniões e posicionamentos serão contrastados com a finalidade de que, não só sejam conhecidos, mas que lancem luz à proposta de entendimento – não de resolução – do problema.
Em Clark
Gordon Clark (1902 – 1985) tem uma abordagem multifacetada quanto à coexistência de Deus e o mal. Em seu livro Deus e o Mal: problema resolvido, por exemplo, sua abordagem parte, principalmente, de uma linha argumentativa apologética, até que chega em seu posicionamento, que é o Determinismo Bíblico. Posição esta que concorda com a doutrina de que nada escapa da soberania de Deus e tudo foi determinado por Ele antes que qualquer coisa tenha sido criada. Também, que os humanos não são seres autônomos de Deus e que suas escolhas não são livres e, portanto, o livre-arbítrio não existe.
Diante deste entendimento sobre responsabilidade, portanto, vemos que, na visão de Clark, Deus é a autoridade máxima sobre a moral, logo Ele não precisa prestar contas à ninguém e tudo o que Ele faz vem de sua vontade e de seu caráter. Portanto, a definição do certo, do bom e do santo é o que Deus faz. Ele não obedece a uma lei moral maior que si mesmo, o que Ele decretar e ordenar é certamente bom, justo e santo.
Em Plantinga
Alvin Plantinga (1932), por sua vez, ao contrário de Clark, em seu livro Deus, a Liberdade e o Mal, argumenta que é possível que Deus, mesmo sendo Todo-Poderoso, não pudesse criar um mundo com criaturas livres que nunca escolhessem o mal ou que é possível que Deus, mesmo sendo totalmente bom, tenha desejado criar um mundo que contenha o mal. Por isso, de maneira antagônica a Clark, Plantinga enfatiza a questão da liberdade do homem20 ao passo que coloca de lado tanto o determinismo bíblico quanto a soberania de Deus.
Ele não afirma, no entanto, que Deus não seja Todo-Poderoso ou totalmente bom. Porém, quando a questão é contrastada com a presença do mal no mundo, seu argumento focaliza – como um holofote – a liberdade do homem.
A RESOLUÇÃO DO PROBLEMA?
A este ponto já é notório que as posições quanto à problemática são variadas e, em muitos aspectos, extremamente antagônicas. Também é possível perceber que, tanto pela dificuldade do problema quanto pela amplitude de possibilidades, dar um veredicto quanto ao assunto parece não ser possível ou aparenta ser, no mínimo, impreciso.
No entanto, há posicionamentos que devem ser vistos, de maneira resumida. O presente trabalho destacará, portanto, o posicionamento conclusivo de Clark e Plantinga, bem como o do profeta Habacuque, pelas razões que serão citadas posteriormente.
Em Clark
Em suma, Clark acredita que a base para a compreensão do Problema do
Mal é a doutrina da Soberania Exaustiva de Deus. Deus é bom, é TodoPoderoso e, portanto, não só pode coexistir com o mal como também está à parte e/ou superior a ele.
Em Plantinga
Em suma, para Plantinga, Deus é bom, todo poderoso “E” o mal existe. Portanto, a coexistência para ele é independente. Isto é, o fato de o mal existir ao passo de que existe um Deus bom e Todo-Poderoso não faz com que o mal possa contagiar a Deus só pela sua existência (ou por qualquer outro modo) nem com que Ele tenha a obrigação de extirpá-lo. Em outras palavras, essa é uma
“regra” colocada pela concepção humana, mas não significa que seja válida.
Em Habacuque
Talvez um dos livros da Bíblia que mais lida com o “problema” da coexistência de Deus e do mal seja Habacuque. O profeta Habacuque, que exerceu o seu
ministério cerca de 612 a.C., foi contemporâneo dos profetas Naum e Sofonias no tempo em que os babilônios derrotaram os assírios e se tornaram o império mais poderoso do mundo. Assim, profeta vê o perigo que o seu povo corre e não entende como é que Deus pode tolerar os babilônios, um povo mal e cruel. Muito menos compreende como Deus poderia “usá-los” para castigar, por meio da opressão e cativeiro, o seu próprio povo.
Mas, ao passo das dúvidas de Habacuque, Deus responde que virá o tempo em que ele castigará os inimigos do povo de Israel e que o profeta espere com paciência, confiando na justiça divina. Os maus serão castigados, e aqueles que são fiéis a Deus viverão.
Por essa razão o livro termina com uma oração, em forma de Salmo, em que Habacuque louva a grandeza de Deus e ao mesmo tempo mostra a sua fé nele.
A abordagem de Habacuque e, portanto, a abordagem bíblica, ressalta os pontos altos do pensando de Clark e Plantinga. Isto porque a abordagem do profeta mostra que Deus é bom e Todo-Poderoso “E” que o mal existe “E” que o mal é de responsabilidade humana “E” que Ele o usa para cumprir os seus propósitos. Isto, de maneira tal que Deus não é o autor do mal, de maneira que não tem a obrigação de contê-lo, embora o faça por vezes, e que pode usá-lo de maneira que seja boa por meio da responsabilidade humana.
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto, que o assim chamado “problema do mal” é insolúvel. No entanto, dentro das perspectivas bíblicas ele é explicável. Além disso, ao mostrar que o mal de fato existe, bem como o próprio Deus e a coexistência entre ambos, a Bíblia não apresenta essa questão como um problema para ela mesma ou para o próprio Deus.
Além disso, se conclui que tanto o determinismo bíblico quanto a liberdade de agir – não se entenda livre-arbítrio, mas livre-agência – do homem são argumentos verídicos e válidos, bem como andam juntos quando a questão é o problema do mal, no que diz respeito à sua coexistência com Deus.
BIBLIOGRAFIA
AGOSTINHO, Santo. Patrística – O Livre-arbítrio – Vol. 8. Paulus Editora. Edição do Kindle.
AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica – Livro I. Campinas: SP, Ecclesiae, 2016
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2012
CLARK, Gordon. Des e o Mal: problema resolvido. Brasília, DF:
Monergismo, 2014
FITCH, William. Deus e o Mal. São Paulo, SP: Publicações Evangélicas Selecionadas
JUNIOR, Heber Carlos de Campos. Triunfo da fé: lidando com o problema do mal: um estudo em Habacuque. São José dos Campos, SP: Fiel, 2012. Edição do Kindle.
PACKER, J. I. O Conhecimento de Deus. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2014
PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. São Paulo, SP: Vida Nova, 2012